
Para
participar de uma Massa Crítica, você – se tiver uma bicicleta – não
precisa comprar nada; nem objeto, nem serviço, nem ideologia; você não
precisa nada a não ser o desejo de tomar parte na vida pública, sobre
duas rodas. Quando centenas ou milhares de ciclistas tomam as ruas tal
qual convivas utilizando o espaço público de forma celebratória, muitas
das expectativas e regras do capitalismo moderno são desafiadas. Comportamentos individuais escapam à lógica do comprar e vender,
ainda que apenas por algumas horas. Uma vez nas ruas, conexões
inesperadas emergem, coisas não planejadas acontecem, relacionamentos
bacanas iniciam por acaso. Diferentemente de uma ida ao shopping ou ao
mercado, as conversas estão livres do jugo da lógica das transações,
dos preços, das medidas. É um intercâmbio livre, entre pessoas livres.
A experiência altera nossa percepção do viver citadino imediatamente
e, mais importante que isso, mexe com nosso imaginário coletivo de
maneiras que estamos recém começando a aprender.
Ciclistas
em uma Massa Crítica estão entre os praticantes mais visíveis de um
novo tipo de conflito social. A “deserção assertiva” corporificada no
ato de pedalar corrói o sistema
de exploração social organizado através da indústria petrolífera e da
posse de automóvel particular. Ao pedalar em centros urbanos do
Império, nós nos juntamos a um crescente movimento mundial que está
repudiando os modelos econômicos e sociais controlados pelo capital
multinacional e impostos a nós sem qualquer forma de consentimento
democrático. A tomada das ruas, em massa, por um enxame de ciclistas
“sem líderes” é exatamente o tipo
de lógica de entrelaçamentos sociais auto-dirigida que está
transformando nossas vidas, do ponto de vista econômico, e ameaçando a
estrutura de governo, de negócios, bem como a estrutura policial e bélica (algo que os estrategistas militares mais imaginativos estão começando a entender).
A Massa Crítica tem uma nova prima na cidade: a San Francisco Bike Party [Festa da Bicicleta de São Francisco, doravante abreviada SFBP]. Esse caráter festivo sempre esteve presente na Massa Crítica; mas o modelo Festa da Bicicleta,
tal como foi desenvolvido em San Jose e outras cidades, tem como ponto
de partida uma equipe de organizadores (e monitores) voluntários que
conduz a diversão. A primeira SFBP aconteceu em uma gélida noite de 7
de janeiro de 2011, e atraiu 1000 ciclistas, apesar do frio intenso.
Foi muito parecido com a Massa Crítica, em alguns aspectos: eu curti
muitas conversas com pessoas que estavam perto durante a pedalada,
havia música, e vibrações amigáveis dos ciclistas bem como dos
passantes. Éramos dúzias e centenas de ciclistas preenchendo as ruas no
lugar de automóveis, exatamente como sonhávamos durante os primeiros
meses da Massa Crítica, lá em 1992.

A Massa Crítica é, ou parece ser, politizada. Mas vamos combinar: sua política é relativamente difusa ou inarticulada; ou talvez seja algo tão plural que não possa ser resumido facilmente
em um único conjunto de idéias. A Festa da Bicicleta [SFBP], por outro
lado, é declaradamente apolítica, um pouco obcecada com a obediência
às regras de trânsito, e – considerando os freqüentes berros de “Festa
da Bicicleta!” durante o passeio – acaba estabelecendo uma concepção
bastante rasa e vazia do que seja “diversão em bicicletas”.
Mais
interessante, talvez, é a liderança informal que se movimenta nos
bastidores tanto da SFBP quanto da Massa Crítica. Existe uma linha de
continuidade entre a SFBP – com seu comitê organizador e seus
“pássaros” (monitores) – e as Massas Críticas mais recentes, ‘da
pesada’[hardcore], “sem líderes”, lideradas por anarquistas. Entre os
dois extremos – em um papel decididamente imoderado – estão alguns de
nós, que gostamos de ambos eventos, por motivos parecidos, mas temos
nossas diferenças com ambos, também. Nós não queremos pessoas nos
mandando ir para a faixa da direita, de maneira prepotente, ou dando
ordem de parar em semáforo quando não há necessidade, ou num ponto de
parada obrigatória quando não há tráfego transversal. Como disse um
amigo: “não faço isso na minha vida normal, por que faria em uma Festa
da Bicicleta?
O
que motiva os organizadores e monitores da Festa da Bicicleta? Teriam
eles uma necessidade de assegurar que um grupo de pessoas obedeça
seus padrões de comportamento? Sabemos que há muitos ciclistas
altamente comprometidos com o “bom comportamento e observância às lei”,
e que defendem ser este o padrão segundo o qual ciclistas de todos os
tipo devem ser julgados. A SFBP recém começou, é provável que cresça
muito, e atraia a atenção da polícia. Quando os organizadores começarem
a negociar com a polícia, não vai demorar muito para que esta resolva
determinar o que é aceitável e o que não é, em termos de trajetos,
paradas e velocidade. Como vai ficar a diversão da Festa da Bicicleta
quando os “pássaros” se tornarem óbvios guardiães das preferências
policiais?
Dito
isso, a primeira SFBP estava de fato muito divertida, e sua
auto-disciplina era um espetáculo à parte. Aqui e ali, quando surgia a
possibilidade de conflito com algum motorista ou ônibus que precisava
passar, as pessoas educadamente faziam espaço. Ninguém furou um sinal vermelho
ou avançou contra o tráfego transversal. Nada disso exigiu
monitoramento; aconteceu naturalmente, a partir das preferências dos
ciclistas.
Interessante
observar que esse tipo de cortesia, emanada do bom-senso, poderia ser
adotada pela Massa Crítica, de forma rotineira (isso já acontece, mas
de forma esporádica); reduzindo assim a tensão e aumentando o prazer na
pedalada para a maioria das pessoas. Alguns de nós articulamos esta
abordagem e argumentamos em seu favor, em panfletos bem como na Rede,
durante anos. Mas nós não queremos ser monitores e não queremos impor
nada a ninguém. Nós gostaríamos que as pessoas se comportassem de
maneira bacana e respeitosa, porque elas querem fazer isso, e porque
isso é mais subversivo do que mostrar raiva e atitude confrontacional!

A
Massa Crítica sempre se caracterizou como algo radicalmente
democrático. No espaço público de nossas ruas, as pessoas presentes
traçam seus próprios destinos segundo
a maneira como interagem umas com as outras e com os passantes, coisa
que pode ser profundamente democrática – não no sentido de votação onde
a maioria ganha, que geralmente aceitamos como definição de democracia
– mas no sentido diretamente democrático de participação aberta e
não-mediada. Em outros sentidos, a Massa Crítica nunca foi
“democrática”: poucas pessoas influenciam a escolha do trajeto (ainda
que, em princípio, qualquer pessoa possa exercer influência a
cada edição do passeio) e menos pessoas ainda causam conflitos, ao
pedalar na contramão ao lado da Massa, ou adiantando-se ao grande grupo
e guinando subitamente contra o trânsito transversal.
Nos
primeiros anos, trajetos eram propostos e “votados” através da
contagem aproximada de mãos erguidas, antes do início do passeio, na
Peewee Herman Plaza. Algumas dúzias de pessoas, apenas, conseguiam
participar nesse processo, mesmo que houvessem centenas presentes às
imediações. Na prática, cada passeio é conduzido pelos ciclistas mais
convincentes e assertivos dentre aqueles que se posicionam à frente do
grupo. Desde o ataque policial de 1997 – que levou a um grande declínio
na comunicação escrita entre os ciclistas (a tão propalada
“xerocracia” parece ter se atrofiado) –
não houve mais do que uma dúzia de propostas de trajeto, ao longo de
igual número de anos. Resultou disso que muitas pessoas que não
vivenciaram a Massa Crítica nos anos 90 se tornaram ideologicamente
compromissadas com os conceitos “não há trajetos propostos” e “não há
líderes”.
Alguns
dentre essas mesmas pessoas parecem crer que a Massa Crítica é um
“protesto” e que o sentido da coisa é ocupar vias arteriais
importantes, de maneira a bagunçar [screw up] o trânsito o mais
possível. Às vezes se pode ouvir essas pessoas resmungando, quando o
passeio se dirige para o sul, ou muito para oeste, e clamando que
deveríamos voltar para a área central, para poder cumprir sua abordagem
tática. Dessa maneira esquisita, eles/elas ESTÃO liderando a Massa
Crítica, mas sem explicar sua idéia, nem como esse proceder poderia
efetivamente levar ao cumprimento de sua não-declarada “missão”. Isso
revela essa realidade peculiar, auto-governada, da Massa Crítica:
lideranças improvisadas [ad-hoc] tomam decisões importantes que
influenciam a experiência que todos estão tendo, mas não dão
satisfações a ninguém a não ser a eles mesmos.
É
aí que alguns de nós, veteranos, ficamos coçando a cabeça. Quem disse
que a Massa Crítica é um “protesto”? Ser um ciclista antagônico não é
contraproducente? O que está havendo em algumas subculturas juvenis
cujos membros acham que é realmente radical ‘aprontar’ [to act out] e
causar brigas com pessoas que não pensam como eles nem têm a mesma
aparência? Não seria mais radical tentar tornar essas pessoas aliados
ativos na luta por uma vida melhor? E o estilo de vida convencional
[“mainstream”], dependente do automóvel, contra o qual os radicais
protestam, não é inerentemente pior do que poderia ser? Não queremos
convidar aqueles que estão assim aprisionados a se juntar a nós, ao
invés de dar-lhes motivo de nos odiarem?
Em
algumas cidades, a polícia conseguiu com sucesso parar a Massa
Crítica, talvez porque os ciclistas não tenham conseguido ser tão
criativos com o passeio e sua lógica. Em Austin, Texas, e Minneapolis,
Minnesota, e até mesmo em Manhattan, a polícia agrediu e prendeu
ciclistas, conseguindo assim desencorajar muitas pessoas a participar.
Em Portland, Oregon, uma cidade muito pró-bicicleta, a Massa Crítica se
extinguiu quando a cultura se tornou demasiadamente dominada por
homens jovens e raivosos (em São Francisco nós os chamamos “A Brigada
da Testosterona”) que pensam que existe uma “guerra de classes” entre
carros e bicis. Eles fazem um esforço extra para bloquear carros,
escarnecer e provocar motoristas, especialmente os que estão em carros
dispendiosos. Aqueles que fazem essas coisas sentem orgulho disso e
crêem estar levando as coisas às últimas conseqüências; mas, para o
resto de nós, eles parecem apenas covardes se escondendo na multidão.
Objetos inanimados não têm luta de classes; ver as pessoas dentro dos carros como inimigos é um enorme erro político. Motoristas não são o inimigo, e sim nossos aliados naturais! Esse pessoal, preso no trânsito, dentro de carros ou ônibus, são claramente mais parecidos do que diferentes
dos ciclistas que estão temporariamente alterando o ritmo da vida
urbana ao tomar as ruas pedalando. O objetivo [the point] da Massa
Crítica, na minha opinião sempre foi criar um espaço celebratório
convidativo que seja tão contagioso que pessoas que ainda pedalam pouco
sejam atraídas, de maneira irresistível, e queiram experimentar
aquilo. Se você ofende pessoas ou tenta fazê-las se sentir culpadas ou
constrangidas, existe pouca chance de que elas venham a mudar a
maneira como pensam e, por conseguinte, mudar seu comportamento. Nosso
prazer é mais subversivo do que nossa ira e, para muitos, é difícil
lembrar disso no calor das ruas.
É
fácil esquecer que uma das melhores coisas a respeito da Massa Crítica
é que ela põe centenas ou mesmo milhares de nós juntos nas ruas, onde
as regras e a etiqueta nem sempre são claras. Isso significa que nós
temos que resolver os problemas que surgem através do diálogo, vamos
acertando/superando as coisas no calor do momento, e com isso adquirimos
importante prática em auto-organização política e autogerenciamento.
Nos
EUA, durante as últimas duas décadas, houve uma Guerra Cultural muito
séria que definiu a sociedade; fundamentalistas cristãos de direita
ousaram cada vez mais tentar controlar o comportamento do resto da
sociedade. Do outro lado estão milhões de pessoas que preconizam um alto
nível de liberdade e tolerância, e você pode encontrar muitas das
pessoas mais ardorosas e articuladas desse grupo pedalando na Massa
Crítica.
Existe
tensão, de fato, entre valores diferentes que se digladiam tentando
influenciar essas pedaladas em massa. Uma grande parte dos
participantes provavelmente não está nem aí, desde que tenham um
passeio divertido todo mês. Não há problema nisso, mas se deixarmos
essas questões mais profundas de lado, nós não estaremos correspondendo a
nossas próprias expectativas. Quaisquer que sejam nossas preferências
pessoais, nem a Massa Crítica, nem a SF Bike Party estão se saindo bem
em comunicar aos passantes o significado mais profundo de sua
existência. Podemos não gostar de tudo que acontece a cada passeio, mas
será que a gente não deveria se puxar mais, tentar influenciar a
cultura que compartilhamos, debatendo abertamente nossos
comportamentos, nossas “mensagens” (ou a falta delas) e nosso
propósito?]
Chris Carlsson -
título original: Protest or celebration? Or Something Deeper Still?
extraído do blog Nowtopia; primeiramente distribuído pelo autor como panfleto na Massa Crítica de S. Francisco em 28 de janeiro de 2011
traduzido por Artur Elias Carneiro com revisão gramatical de Cláudia Ávila Moraes
observações sobre a tradução:
expressões entre “aspas” estão assim no original (ex.: “sem líderes”)
expressões entre (parênteses) estão assim no original
[colchetes] contém a expressão original em inglês
expressões em negrito ou em itálico estão assim no original
‘aspas’ simples foram adicionadas por mim
[colchetes em itálico] foram tbém acrescentados, para clarificação